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Sem direito à greve

por Balhau, em 14.11.12

Hoje é um dia notável. Um daqueles dias em que as pessoas, inspiradas no comportamento síncrono das formigas, decidem mudar o seu quotidiano em função de um propósito comum. E o propósito é simpes. Dizer alto e em bom som. Estamos um bocado fartos desta realidade. Aqui no Porto a manifestação é ligeiramente diferente. A ideia é a mesma mas a emoção esborda inundando o frio da realidade com calorosos insultos e bastantes alegações à mais antiga das profissões. Hoje ao contrário do que é de esperar não quero falar da greve. Pelo menos directamente. Gostava antes de vos propor um passeio reflexivo visitando alguns conceitos que subjazem a democracia. Conceitos que, atrevo-me a dizer, são transversais e estão presentes nas várias civilizações, existentes, passadas e vindouras. Gostava de apresentar duas ideias simples, basilares, e ao mesmo tempo um pouco conflituosas em termos de interesse. São elas a "madame équité" e "monsieur méritent". Exactamente mérito versus equidade. Estes são dois princípios, valores, que na minha opinião pessoal e muito romanceada da realidade, deveriam andar lado a lado. Nos dias mais sombrios o calor da senhora equidade deveria ser a lareira da gélida indisposição do senhor mérito. A existência de equidade é uma ideia necessária para a coesão social, o reconhecimento do mérito é condição essencial para que haja inovação, é o gerador de vontade para que o ser humano crie alguma coisa. Para fazer algo temos essencialmente dois motivos. A necessidade ou obrigação por um lado, por outro, a perspectiva de uma recompensa, de um reconhecimento da nossa acção. Há quem pense que "o que tem que ser muita força". Há quem pense que "será feito porque tem que ser, mas não o será da melhor forma nem o será para sempre". Aqui há espaço suficiente para filosofias. E em boa verdade assim é. As pessoas tem uma natural tendência para a dicotomia. As questões são, normalmente, colocadas em forma de "branco ou preto", "certo ou errado", "pode ou não pode", "tem ou não tem". Quando tomamos uma abordagem destas em questões de natureza manifestamente complexas corremos o risco de sacrificar as vantagens e desvantagens da posição que decidimos ignorar. A política não tem evoluido muito neste ponto. A política actual continua, assim como há muitos anos atrás, a ser dirigida por dicotomias. A banca ou o trabalhador. O grande capital ou o pequeno operário. A saúde económica ou o estado social. As questões continuam a ser colocadas de forma errada pelas pessoas igualmente erradas. Hoje decidi mudar a questão de fundo. Ao invés de indagar as razões pelas quais as pessoas fizeram greve decidi formular a questão em termos opostos. Por que razões as pessoas fizeram greve. A pergunta parece, aparentemente, reveladora de uma certa incapacidade mental no entanto esta esconde um pormenor bastante interessante que é continuamente ignorado pela comunidade política e pelos media portugueses. E a razão pela qual a questão é delicada prende-se pela seguinte observação. Antes de decidir ir à greve um cidadão tem de questionar se está, ou não, em condições de o fazer. E este é um ponto crítico. Nós costumamos tomar como dado adquirido o facto da ida a uma greve ser uma questão de vontade pessoal. De um modo quase automático a maior parte das pessoas traduz a ida a uma greve, mais uma vez numa errónea dicotomia. Vai porque quer, não vai porque não quer. Ignorando aqueles que não vão porque não podem e aqueles que indo não foram pela sua própria vontade (muitos dos agentes da autoridade). Por incrível que pareça não são aqueles que estão na greve que estão em posição mais desprotegida em termos economico e sociais. Os mais debilitados e expostos no tecido social e económico são aqueles que não vão porque não podem. Aqueles que não tem uma ordem ou um sindicato a defender os seus interesses. Ou aqueles que, ainda que tendo uma entidade representativa dos seus interesses, vem o seu trabalho sub valorizado pela implacável regra de mercado, a relação entre oferta e procura. O mais irónico e terrivelmente cínico neste dia de greve é que aqueles que mais precisam dela nem sequer lá vão. 

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publicado às 16:16





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