Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Políticos e o seu problema semântico.

por Balhau, em 13.10.12

Em Governo promete tentar gravar greve em sectores estratégicos  somos presenteados com algumas informações curiosas dentro das quais destaco a seguinte:

 

---Begin Quote--- O líder parlamentar do CDS questionou o primeiro-ministro se está disponível, caso se agudize a situação nos portos, "a utilizar todos os mecanismos legais e constitucionais para que Portugal e os portugueses não possam ser prejudicados por os interesses, ainda que legítimos, de apenas alguns".

---End Quote ---

 

Tomemos atenção à frase que se encontra dentro de áspas. A meu ver esta é verdadeiramente deliciosa. Segundo o representante do CDS a proposta é, então, a de analisar a lei para assegurar que o interesse de Portugal e dos portugueses não sejam prejudicados pelos interesses, ainda legítimos, de apenas alguns. Eu acho esta frase deliciosa porque é extremamente hábil a deturpar a realidade. Em primeiro lugar não se tratam de somente de interesses. O senhor do CDS deve ter um ligeiro problema de interpretação de realidade mas o que está em causa não é uma questão meramente de interesses mas antes uma defesa de direitos e portanto enquadram-se no artigo 21 da constituição:

 

"Todos têm o direito de resistir a qualquer ordem que ofenda os seus direitos, liberdades e garantias e de repe- lir pela força qualquer agressão, quando não seja pos- sível recorrer à autoridade pública."

 

E o mais interessante é que o digno senhor do CDS nem sequer nega a legitimidade. Faz simplesmente uma troca manhosa de semântica e utiliza o relaxado termo "interesse" ao invés do "direito de resistência". Como se isto não bastasse tenta passar para a opinião pública que esta manifestação, garantida pela constituição, afecta o interesse nacional. Aqui, mais uma vez, uma questão hábil de semântica. É evidente que qualquer manifestação popular, qualquer greve, ou outro movimento que revele indignação e se traduza num manifesto movimento popular não trás quaisquer vantagens nem é do interesse directo dos restantes portugueses. Agora devo lembrar ao senhor do CDS que não tem, neste caso, o direito de invocar o interesse nacional como argumento válido a hastear numa bandeira. E a razão pela qual não o pode fazer é simples. Eu como muitos outros portugueses somos solidários com os movimentos populares dos trabalhadores dos portos. Eu como muitos outros portugueses acham que é do interesse nacional defender a soberania dos portos mantendo estes sob a tutela pública. Eu como muitos outros portugueses somos manifestamente contra as políticas selvagens de privatização sustentadas no mito da maior competência privada. E portanto, e em suma, eu e muitos outros achamos que é do interesse nacional que a voz destes manifestantes seja devidamente ouvida. É também do interesse nacional que este tipo de manhosice intelectual deixe de afrontar a constituição.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 11:24





Pesquisa

Pesquisar no Blog  






Contador