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O fruto proibido do Ano Novo.

por John Wolf, em 16.12.12

12 Passos de Natal. Não engula. Cuspa.

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publicado às 17:28

Um Keynes deprimido.

por John Wolf, em 05.12.12

 

Uma depressão Keynesiana.

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publicado às 10:38

Exportação da população activa

por Raquel Loureiro, em 24.11.12

A propósito da notícia da emigração dos nossos jovens (mão de obra qualificada) veiculada pelo jornal Público no passado dia 19.11, partilho convosco o que me vai na alma.

A notícia suscita duas questões base: “exportação” de população activa e de população activa extremamente válida, qualificada e competente; “importação” de população activa.


Começo por me referir à segunda questão, salientando que não é inocente a minha omissão quanto aos adjectivos que possam (ou não) qualificar a população que temos vindo a “importar” para o nosso País.


Desenvolvendo, e para quem não o sabe, mas certamente já ouviu dizer muitas vezes que os emigrantes de Leste são altamente qualificados e que cá sujeitam-se a trabalhos ditos menores (ex: “a minha empregada doméstica é engenheira civil no país dela”, ou “no país dele é médico e cá trabalha como servente nas obras”, etc), tais estatísticas são realizadas em Portugal por mero meio de questionário feito ao emigrante, na maior parte das vezes, ainda no aeroporto aquando do desembarque.


Nesse questionário consta a corriqueira e da praxe pergunta: “habilitações académicas?”


Ora, vindo o emigrante à procura de melhor vida e não sabendo a que se destina a pergunta, consequentemente por cautela - não vá por ventura ter influência na obtenção de título de residência e autorização para trabalhar -, se no país de origem era, por hipótese, auxiliar de acção médica, responde: “tenho o curso superior de enfermagem”…


E, sendo verdade que se uns responderão com honestidade, pois que “não há regra sem excepção”, outros (a grande e vasta maioria) “faz-se mais que aquilo que é”. E porque não? Ninguém pede comprovativos, ninguém fiscaliza… é para meros efeitos estatísticos.


De onde resulta que, desde há uns 10 ou 12 anos a esta parte, temos vindo a “tapar o sol, com a peneira”, nomeadamente graças às várias legalizações extraordinárias a que temos vindo a assistir.


E temos vindo a “tapar o sol com a peneira”, por duas ordens essenciais de razões:


A “importação” de população activa dava lucro com a “venda” dos títulos de residência. Havia que aproveitar a estadia dos inúmeros ilegais para gerar receita, sob uma falsa capa de protecção dos mesmos (até contra a exploração, que infelizmente houve, há e sempre haverá em qualquer país (ou não fosse, como disse Franz Von Liszt, o Código Penal a “magna carta do delinquente”).


Porém, com as várias legalizações extraordinárias daqueles emigrantes ilegais (extraordinárias porque aos olhos da Lei todos eles deveriam ter vindo com o competente visto obtido na origem) – por via das autorizações de permanência concedidas já em território nacional, e que posteriormente vieram a mudar a nomenclatura mas que na base em nada se alterou – nunca se verificou uma regulação e efectivo controlo das necessidades de mão-de-obra.


Da "importação" de população activa, o resultado é que apenas aumentámos o número de beneficiários de prestações sociais, sendo certo que, qualquer estrangeiro destas beneficiário - e para muitos talvez aqui esteja a dar uma novidade - consegue "legalizar-se" ou manter-se cá "legalizado". Não obstante ser certo que, agora, também estes abandonam o País.

Doutra banda, na verdade, há muito que Portugal se debate com a problemática da crescente diminuição da população activa. Mas, ao invés de atrairmos emigrantes produtivos – com visto obtido nos respectivos países de origem (regime legal geral e, até, comum à grande maioria dos demais países do mundo) e de acordo com as nossas necessidades de mão-de-obra – e simultaneamente investirmos na protecção à maternidade/paternidade e criarmos condições para que se verifique um real e exponencial aumento da natalidade, fazemos precisamente o inverso, designadamente por investirmos apenas pela metade…


Facto é que os portugueses não têm filhos, a população está cada vez mais envelhecida e, pior, os nossos jovens e jovens adultos vêem-se forçados a abandonar o País, pois que aqui nem para os próprios há condições de subsistência quanto mais para os eventuais filhos… Já não há coragem para ter filhos! Quem ainda não ouviu um amigo, um vizinho ou mesmo em qualquer conversa de café, alguém dizer: “não posso trazer uma criança ao mundo sem saber o dia de amanhã” ou “não vou ter um filho, para depois passar fome porque não tenho para lhe dar de comer”?


Afinal, quanto custa arrendar uma casa, quanto custa uma creche ou um infantário?

Claro, os nossos jovens e jovens adultos, como todo e qualquer ser humano, têm instintos naturais. E sim, eles vão procurar satisfazer os seus desejos, nomeadamente o de procriar. Não o podendo fazer cá… vão tentar alcançar “melhor vida” noutro país e, já agora – porque não? Tendo direito... –, obter outra nacionalidade? Afinal, “abre portas”…


Mas aqui, entramos num outro aspecto que rondará uma espécie de entreposto comercial de vistos e de aquisição da nacionalidade (que, no caso da nossa, admitamos em consciência, já pouco ou nada vale…) - livres trânsitos para outros países da Europa - e que, creio, deverá ficar para “outras núpcias”.


O que fazer para evitar a “exportação” da nossa população activa? Parece-me que só há uma alternativa viável: criação de emprego e acérrimo apoio à natalidade. No mais, tudo “andará de braço dado”…!


(texto redigido ao abrigo do antigo acordo ortográfico, pela manutenção [ao menos] da nossa identidade linguística)

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publicado às 01:32

O que se segue ao 14 de Novembro?

por John Wolf, em 16.11.12

Se Darwin fosse chamado a pronunciar-se sobre a evolução da "espécie humana protestante" colocaria a seguinte questão: o que se segue? O que vem a seguir? Na escala da expressão do desagrado, passamos do festival "peace and love" do 15 de Março a um "bater de pé" mais audível a 15 de Setembro, e eis que nos encontramos no "a ferro, fogo e pedra" do 14 de Novembro. Nos meandros académicos muito tem sido pensado e escrito sobre a violência, a ameaça de uso de força e o uso de força. São conceitos operativos distintos que não devem ser emaranhados num novelo, numa novela de culpados e inocentes. Os gansos e patos têm servido de cobaia para investigar o fenómeno estrutural subjacente ao uso de força e manutenção da coesão social. Konrad Lorenz pode ser consultado para ulteriores desenvolvimentos sobre a matéria. Fica a sugestão. Não é minha intenção aprofundar a teoria que sustenta a prática comportamental dos animais...perdão homens. Outros autores e jogos de resultados podem ser estudados para tentar realizar o irrealizável. Interpretar o fenómeno político e social através de uma óptica de custo e benefício, cacetada e submissão - quase sempre dá asneirada. Thomas C. Schelling é outro investigador clássico que ajudará à clarificação dos termos e conceitos que muitos trazem à baila de um modo indiferenciado. Os lançadores de calçada foram violentos ou fizeram o uso da força? E as forças policiais terão explorado ao limite a "ameaça do uso de força", antes de empregarem os meios que foram observados? Mas regressemos ao que pretendo enunciar com esta dissertação. Na escala de meios e resultados obtidos, pergunto qual será o passo seguinte? Será que existe uma expressão mais intensa de protesto do que aquela presenciada em frente ao Parlamento? E é aqui que reside uma parte da problemática. De que forma se protege um cidadão de um seu concidadão? Os "chefes de claque" que embandeiraram em arco as pedras da calçada puseram em causa o colectivo - um consenso quase alargado à totalidade dos manifestantes, um código protestante que postula a voz como arma principal para transmitir a sua indignação, a indignidade a que foram remetidos por decisões políticas. Do outro lado da barricada será legítimo perguntar de que modo as forças de segurança e defesa do Estado podem administrar o uso de força de um modo justo e proporcional. Será possível a medição da bastonada? Seria possível implementar uma escala de impacto, através da qual um sujeito tem direito a 23% da bastonada e outro indivíduo a 77%? O conflito social que está a devassar o país obriga a que se especule sobre os meios à disposição. Para já, e face ao sucedido, ainda nos encontramos no território da semi-racionalidade, das verdades repartidas. Não vi manifestantes a arremessar cocktails Molotov, nem vi a polícia a usar canhões de água ou bombas de gás lacrimogéneo, e esse facto deve ser preservado para um quid pro quo aceitável. Uma marca de distinção no modo de fazer as revoluções. 

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publicado às 16:42

Haverá algum túnel em S.Bento?

por Faust Von Goethe, em 31.10.12


Pelo que parece, os gregos estão a limpar um túnel antigo que liga o parlamento helénico com o porto de Piraeus para que os parlamentares possam escapar da fúria popular caso se dê uma eventual invasão do parlamento esta quarta-feira, o dia em que o novo pacote de austeridade será discutido pela assembleia grega. Enfim... ao que chegámos...

 

Álvaro Santos Pereira em Desmitos (dias antes de tomar posse como ministro).

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publicado às 19:44

Uma parte apenas do problema...

por John Wolf, em 31.10.12

 

Gostaria de saber se existe uma dimensão da sociedade Portuguesa totalmente virgem e impoluta, com as mãos limpas, que não praticou o jogo das amizades e favores, das trocas e baldrocas. Começo a ficar farto dos intelectuais e artistas (opinion makers, comentadores, jornalistas, editores, académicos e escritores, entre outros) que batem que se farta nos "outros" (como se existissem os outros!), mas que esquecem que fazem parte do sistema, que nasceram a partir dessa matriz de poder, e que são parte do problema - farinha do mesmíssimo saco. Se é para desconfiar de tudo e limpar a casa, então que nenhuma divisão fique esquecida. O conceito de "intocável" não pode servir os intelectuais. Eles não pensam...eles não pensam por nós. Diria que com o andar da carruagem e com tantos fantasmas a sair dos armários, estão com medo, apavorados. Aposto que em breve os podres serão descobertos, destapados com a mesma vulgaridade com que se deseja "sanitizar" os meandros da economia e das finanças. A revolução tem de ser justa e abrangente, repartida irmãmente pela rapaziada. Para que se possa recomeçar sem vestígios da patologia. Da doença que não escolhe as vítimas.

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publicado às 13:19

La Palissadas inspiradoras por quem nos deve ler-ou devia...

por Faust Von Goethe, em 23.10.12

Eu a 13.10.2012 : "ao consumir dou lucro aos patrões, dou trabalho a uns quantos empregados. Porque encontrando-me dentro de uma grande superfície, não me encontro na rua corromper a democracia. La Palisse se fosse vivo diria o mesmo."


Adenda #1: Não sei se Passos Coelho e/ou os seus acessores nos anda(m) a ler. Se não anda(m), devia(m) :D.
Adenda #2: Para o Camilo Lourenço que só sabe fazer contas de somar e diminuir subtrair, apenas para lembrar que para se efectuar o cálculo da dívida pública, em percentagem, temos de considerar o rácio D/PIB, onde D representa a dívida [pública] líquida e PIB o produto interno bruto. Ora se o PIB está a diminuir, porque a economia se encontra em contração, então a dívida pública aumenta porque é inversamente proporcional ao PIB. Para quem tem uma formação sólida em matemática, esta relação é mesmo lapalissiano trivial! 

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publicado às 15:11

A austeridade a que nos obrigaram

por Carlos Roberto, em 20.10.12

As pessoas têm razão ao quererem só levar futebol e casa dos degredos para casa, a verdade é que o que sobra não dá muita vontade de ver. Os políticos com a sua meta-linguagem não aproximam as pessoas até pelo contrario a mensagem de optimismo não existe parece que é propositada uma mensagem pessimista sem esperança.Será que os políticos têm interesse na industria farmacêutica de produção de antidepressivos ? Não há uma mensagem de esperança de luz ao fundo do túnel, será que só um ditador a pode dar ? Não precisamos de um Hitler que levantou o pais quando já ninguém acreditava em nada ... O problema é que caímos neste lugar comum da história da humanidade que nos pode sair caro, o povo português sempre idolatrou sebastianismos de onde Salazar o "Salvador da Pátria" foi um bom exemplo.

Precisamos de uma nova classe política não precisamos de um novo Salazar, precisamos de bons exemplos e não de mais do mesmo, se temos de aguentar com a austeridade exigimos rigor.

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publicado às 15:36

Moedinha austera...

por John Wolf, em 18.10.12

 

Já que estamos numa de euros, gostaria de explorar os meandros de um caso enigmático. Um estranho dossier, um mistério complexo e sem aparente solução. Refiro-me à moeda. Não à moeda no sentido clássico; mas a moeda em si. A chapa ganha, a chapa gasta, o pequeno dinheiro que tilinta no bolso quando encontra companhia. Gostaria de saber porque razão o cidadão Português tem uma estranha relação com as moedas? Ou não as tem, ou não as deseja dar de mão beijada. Basta tentar pagar uma bica no café da manhã com uma nota de dez euros e o empregado dispara logo: não arranja uns trocos para facilitar? (facilitar o quê?) O mesmo acontece com o taxista que roda a chave para a primeira corrida do dia e não se equipa com munição adequada, e chegando ao destino nem sequer profere um vocábulo de jeito. Dá um grunhido porque o cliente estendeu a nota. É certo que não existe um dispensador em cada esquina, um multibanco-moeda, mas isso não serve de desculpa. Os comerciantes que preparem o dia seguinte de um modo adequado. Assaltem o mealheiro ou a caixinha de esmolas como se de um banco privado se tratasse. Um BPN dos pequeninos. E depois, ainda há um outro aspecto perverso. Paga-se a sande (gosto da palavra sande...parece que foi mordiscada no fim!) com uma nota de vinte e a outra empregada é mesmo mesquinha. Tem um prazer torcido em despejar uma quantidade invejável de moedas sobre o balcão de vidro e remata: desculpe, vai ter de ser tudo em moedas (pelo menos uma dezena de 10 cêntimos e muitas das outras!) Porém, ainda há outras dimensões que merecem ser interpretadas. O desapego nacional em relação à moedinha pode ter a ver com esse defeito nacional de querer ganhar tudo de uma vez. Será uma espécie de síndrome de Tio Patinhas ao contrário? Não entendo. Talvez pergunte ao próximo arrumador de carros que encontrar. Dos antigos. Porque alguns dos mais novos só aceitam notas.

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publicado às 10:41

Vossa Excelência...a Excelência de Portugal!

por John Wolf, em 16.10.12


Economia de Excelência (capítulo integral do livro - Portugal Traduzido - Edições Cosmos, 2008)

 

Ao abrir o capítulo, não posso deixar de pensar na expressão ‘milagre económico’ e questionar seriamente se tal será possível, ou se estaremos a blasfemar. A meu ver, a economia corresponde aos antípodas de um milagre. Ou seja, um milagre acontecerá por intervenção ou inspiração divinas, de forma gratuita e será dificilmente fundamentado por racionalidades. Ao invés, a economia encerra em si uma atitude de trabalho e é mensurável em termos objectivos e racionais. O que poderá aproximar a economia a um milagre prender-se-á com a ideia de inspiração. Por um lado, a fé obriga a uma procura interior de forças para a concretização de objectivos existenciais, enquanto a economia exige a contínua procura de soluções criativas para incrementar a produtividade e ganhar mercados. Em ambos os casos estaremos na presença de um ideal, enquanto propósito a atingir. Sem o contributo da força de uma imagem projectada, nenhum empreendimento poderá nascer. E essas imagens nascem no âmago do humano.

A economia, numa fase embrionária, assume-se com a tomada de consciência das diferentes e específicas necessidades humanas. Corresponderá ao reconhecimento de uma lacuna existencial, física ou não. A ideia de riqueza apenas surge na sequência ulterior do desenvolvimento da ideia criativa. Se somos bem sucedidos no preenchimento de uma necessidade humana, contribuímos então para o progresso de uma sociedade, e com a ocorrência de tal facto, a compensação financeira acontece enquanto retribuição pela qualidade oferecida. Somos desde já confrontados com o aspecto fulcral da ideia de economia. Trata-se da noção de que um processo genuinamente criativo tem de ocorrer no núcleo de uma sociedade, para que esta se converta numa sociedade produtiva, económica e geradora de riqueza. Um processo criativo será um processo excêntrico, pela integração de elementos exógenos à constituição genética e indígena de um dado problema, porque nem sempre a solução nasce no núcleo do problema ou desafio.

Poderemos considerar o processo criativo enquanto uma busca contínua de soluções. Tratar-se-á de um processo de outsourcing mental, através do qual o indivíduo procura ampliar o leque de possibilidades para uma dada dimensão ou desafio. Em resultado desta atitude assumidamente intelectual nenhum processo será finito e nenhum modelo económico poderá ser adoptado de forma integral e absoluta. A tarefa consistirá em inventar novas necessidades humanas que assumem sempre uma dimensão económica, mas não necessariamente a dimensão material ou física. Ao assumirmos a economia enquanto realidade cognitiva, para não utilizar a expressão virtual, teremos a oportunidade de gerar riqueza sem criar resíduos industriais ou infra-estruturas pesadas. A economia em Portugal ainda está algo obcecada com a ideia de infra-estrutura, seja grande ou pequena. Reconhecemos uma certa patologia da visibilidade da obra, através da qual se purga a abstracção da máquina produtiva. Ou seja a invisibilidade da ideia inovadora ‘invisível’ é compensada com a grande obra sólida.

A excessiva estratificação social em Portugal também minou o posicionamento profissional, pela forma como se faz a discriminação entre as diferentes funções da cadeia produtiva. Como se uns contribuíssem mais para a economia do que outros, de uma forma linear e não ponderada.

Teremos também de criticar a fantasia académica que assola Portugal, reino onde todos são doutores e têm ligações privilegiadas a decisores ou estruturas de poder. A ênfase é colocada na dimensão humana da economia, mas de forma negativa, traindo o ideal do mérito objectivo, numa sociedade onde supostamente ninguém se deve conhecer à partida. Tratamos aqui de uma sub-estrutura mental que deve preceder a operacionalidade da economia. Enquanto não se perceber que a economia deve ter origem numa ‘sociedade anónima’, corremos o risco de desvirtuar o sonho de geração de riqueza. Neste sentido, deveríamos tentar encontrar os valores humanos que foram suprimidos pela incompetência daqueles que foram já identificados e colocados em posições de privilégio. Paradoxalmente, encontramos as pessoas erradas nos locais certos, confirmando um erro de casting e desresponsabilizando a mediocridade profissional de quem pratica erros objectivos mas que continua a manter as suas posições porque conhece as pessoas certas, mas não as acertadas. Os despedimentos colectivos poderiam ser convertidos em despedimentos selectivos ou contratações específicas. O contributo negativo daqueles que desconsideram os seus semelhantes na estrutura produtiva contribui para minar o fundamento intocável da construção de uma sociedade económica colectiva baseada no mérito.

Torna-se curioso observar que a ‘luta de classes profissionais’ em Portugal ainda não é um assunto totalmente esclarecido. Observamos uma clivagem, entre a suposta aristocracia económica estabelecida e os recém-chegados, que não aceita que representantes da escalada económica e social venham a ocupar a sua posição. Uma dinastia económica ou rede de famílias dominantes não promove eficiência produtiva ou inovação económica se impede a entrada de novos membros ou talento na estrutura produtiva. Assistimos à substituição de valores económicos puros por mecanismos de troca de favores, o que contribui para o desleixo e incompetência na actividade produtiva. A economia não pode sobreviver à custa de famílias com tradição no ramo ou de lugares cativos em posições-chave. A economia vive sobretudo à custa da ruptura e mudança. Embora a história possa conceder lições ou exemplos relevantes, não serve o caminho do progresso e da abertura. ‘Ganhos passados não garantem rendimentos futuros’, nem currículos de supostos gurus do saber económico. A economia vive à custa de loucos e excêntricos que definem o que o consumidor jamais sonhou necessitar. O comportamento tímido e conservador dos empresários resulta da falta de ideias e criatividade. A economia, neste sentido, também representa uma manifestação de cultura e não será possível desenvolver soluções inovadoras se os que pretendem gerar riqueza não demonstram amplitude cultural para realizar a leitura da sociedade em que se inserem.

O processo de cultivo e optimização do saber implica cortes transversais nas relações socioprofissionais. Observamos em Portugal sintomas de mau relacionamento entre as diferentes classes sociais, ou se quisermos entre patrões e operários. O problema da economia em Portugal não é um problema de hardware (infra-estruturas física ou competências), mas sim de software (atitude). A alteração do programa mental que condiciona esse relacionamento corresponde a um processo exigente na medida em que obriga à rejeição de elementos que integram o carácter nacional forjado ao longo de séculos. O orgulho nacional, ou o passado histórico ‘glorioso’ de um país, representam bloqueios à prossecução de objectivos económicos, no quadro de um mundo descaracterizado onde a identidade nacional se vê diluída em nome da produtividade. A excessiva grandeza dos empreendimentos passados não contribui de forma equilibrada para a formação de um quadro mental sustentável.

Como então promover processos que possam facilitar a ousadia, o arregaçar das mangas e a criatividade? O estigma da ‘resposta errada’ representa uma patologia cultural a merecer uma cura definitiva, para que o processo criativo possa acontecer naturalmente. Ou seja, integrar na psicologia colectiva a possibilidade de não se acertar à primeira com a solução adequada, mas extrair desse processo lições válidas. O perfil orgulhoso da nação pode significar também o nefasto afastamento da infantilidade intelectual ou cultural, elemento necessário para erigir uma ideia criativa. As tentativas e erros que ocorrem no processo para encontrar as soluções adequadas, fazem parte do ‘track record’ de qualquer projecto. Elencar ou registar as contribuições negativas (as ideias aparentemente tolas ou absurdas) pode constituir um depósito de soluções para situações futuras. Condenar de uma assentada o indivíduo e a ideia proposta (que não serve de solução), contraria profundamente a ideia de evolução, progresso ou mesmo democracia.

De que forma então poderemos promover a salvação da metodologia construtiva de respostas numa sociedade? A tarefa poderá consistir em separar o objecto (ideia, projecto, conceito, modelo) do sujeito (indivíduo, autor, personalidade), distinguindo os aspectos formais dos materiais e pela exclusão dos elementos emocionais que condicionem a existência autónoma ou independente da solução criativa. Reforço a ideia de que a criatividade representa um fenómeno excêntrico, que mina os alicerces dos paradigmas dominantes e instalados. Poderíamos aceitar enquanto metodologia a identificação dos traços económicos da nação em função do carácter nacional, e adequar deste modo os eventuais modelos de desenvolvimento à personalidade colectiva.

Será Portugal um país vocacionado para a indústria, o turismo, para os serviços ou as tecnologias de informação? Qual o posicionamento possível da economia nacional no quadro global? Que inovações poderá Portugal esperar que representem vectores válidos para o crescimento económico?

Em função desta tipologia de questão, poderemos encontrar respostas para a descrição do perfil psico-económico da nação. E ao traçarmos as características económicas da nação, poderemos descortinar qual a medida da ambição nacional. Contudo e contrariamente, se aceitássemos esta ideia de perfil ou características dominantes estaríamos a limitar as infinitas possibilidades que se oferecem a um país. Um país deve decidir o perfil económico que quiser e álibis de desresponsabilização baseados no carácter nacional devem ser afastados. Uma economia será o que quisermos que ela seja.

Um país, ao projectar-se para além do tangível do momento, assume uma atitude de ambição. Por sua vez a ambição nacional só se ‘eterniza’ e passa de geração para geração se a riqueza criada pela mesma puder ser devolvida à sociedade. A ideia de riqueza em Portugal está associada à ideia de uma elite privilegiada que não entende este processo de reinvestimento noutras texturas socio-económicas, que constituem a garantia para a sua continuidade. Ou seja, as oportunidades geradas têm dificuldade em migrar daqueles que as possuem para aqueles que as desejam. Esta relação pode ter um efeito desagregador e desencoraja a escalada económica que muitos agentes ou indivíduos desejam realizar, porque não sentem o estímulo positivo da entidade bem sucedida e o seu contributo para o ideal anónimo. A noção de self-made man ainda não representa um modelo validamente reconhecido em Portugal, pela estrutura social. O abandono das origens humildes pelo indivíduo e a transformação de precariedade económica em sucesso continua a ser percepcionado de forma dúbia e com algumas suspeições. Este reflexo enraizado na psique nacional não será totalmente descabido, uma vez que poderá estar relacionado com o desvirtuar dos tempos ou ciclos normais de crescimento económico ou sucesso. O calendário de riqueza ou produtividade relaciona-se muitas vezes com planos marginais de enriquecimento rápido. Esta noção encontrará sem dúvida a sua origem no passado histórico de Portugal. A própria invenção nacional dos descobrimentos e a abertura das rotas de comércio global validou a ideia de enriquecimento rápido não resultante de actividade económica convencional e directa. Destrói-se deste modo um dos pilares da economia, a ideia de valor intrínseco, que não se deve confundir com o conceito de valor de mercado, que tem uma natureza mais psicológica ou especulativa. Ou seja, um valor intrínseco agrega os elementos dinâmicos e objectivos de uma economia que transcendem as vicissitudes conjunturais. A criatividade, a inovação, o valor, a durabilidade, a utilidade, a produtividade e a humanidade dos bens criados (a forma como servem o Homem).

A economia, tal como vem sendo explicada, não obedece a nenhum critério de nacionalidade, o que representaria uma doutrina nacionalista e que implicaria distinguir países com maior vocação económica de outros com fraca atitude produtiva. Será possível, contudo, assumir uma ideia de denominação de origem económica, elencando os atributos económicos exclusivos que definem um país e que são passíveis de gerar riqueza. A expressão ‘valor intrínseco’ poderá significar ou representar a pedra angular que condiciona a definição do projecto nacional para uma economia de sucesso. O seu significado precede a ideia de actividade produtiva propriamente dita, para preencher a dimensão sociológica e cultural de um país.

O que poderá significar então? Uma abordagem tradicionalista ou cultural da ideia de valor intrínseco poderá relacionar-se com a identificação de elementos que uma sociedade reconhece enquanto intocáveis ou invioláveis. Referimo-nos a tradições ou práticas que integram a resenha definidora da nação. Trata-se de elementos icónicos sem os quais a nação deixa de existir na sua afirmação, e na sua distinção de outras nações. Esses elementos, consubstanciados em práticas ou matérias provêm do percurso existencial da nação, e são fruto de uma amálgama com várias proveniências. Convém no entanto ressalvar que nem todas as tradições ou práticas culturais serão passíveis de conversão em valor económico. Poderá acontecer até que determinados vincos culturais ou tradicionais sejam mesmo contraproducentes. Uma das tarefas consistirá em proceder à eleição dos vectores culturais ou tradições que poderão veicular força económica ou (re)inovação.

A referência a cultura deverá ser entendida enquanto a atitude perante o conhecimento, que molda um quadro mental flexível e disponível para exercícios de adaptação a novos desafios. Aproximamo-nos de um conceito de cultura que poderá estar mais ligado às práticas enraizadas no comportamento económico de um país, e nessa medida entendido como um elemento condicionador da actividade produtiva. Ou seja, uma definição de cultura que revela a capacidade para reinventar a própria abordagem ao conhecimento sob um prisma económico.

O valor intrínseco reconduz-se a cultura e ao que acabamos de descrever, na medida em que se sublinha um sentido de procura de valores maiores, que integra a alma humana e que condiciona comportamentos. A cultura invoca essa grandeza de realização e a economia deve extrair lições desse vector construtivo.

O valor intrínseco comporta na sua génese ou matéria uma condição de imunidade perante os diferentes níveis de percepção de que possa ser alvo – há valores que perduram para além da vontade humana. Em termos económicos ou de mercado (relacionado com a ideia de percepção), consubstancia-se no preço atribuído a determinado bem ou serviço, mas que não corresponde ao seu valor intrínseco. O valor intrínseco corresponde ao intangível, que não pode ser apropriado de todo ou apenas por unidades de medida usados no mercado.

Convém no entanto salvaguardar que considerarmos a dificuldade da mensurabilidade do valor intrínseco. Quais serão as medidas válidas para determinar o valor intrínseco? Poderemos aceitar matrizes de classificação distintas para reconhecer que o valor intrínseco transcende a racionalidade pura. Mas mais importante do que a determinação da medida, será a tomada de consciência da sua existência. O reconhecimento por parte de um país da disponibilidade de valores no seu espaço determinará a vitalidade na prossecução de um ideal de progresso e crescimento sustentado.

Esta interpretação da importância de valor intrínseco poderá espoletar na economia um processo de reavaliação das prioridades. Não estará Portugal sentado sobre um manancial de valores intrínsecos convertíveis em significado económico e expressão de mercado?

Esses valores intrínsecos que devemos procurar identificar, andam a par de outro conceito determinante para a geração de riqueza. A excelência. Poderemos entender este atributo como pré-condição para qualquer actividade humana. Ou seja, a ideia de que cada indivíduo poderá imprimir um grau de exigência elevado na realização de qualquer tarefa ou na concretização de algum projecto, mesmo que os outros não o reconheçam ou identifiquem. O valor intrínseco será neste sentido, resultante da excelência, e teremos assim pelo menos duas variantes. Por um lado a identificação de valores intrínsecos provenientes da procura de excelência no passado (histórica), e por outro lado uma visão prospectiva, que promove a ideia de excelência enquanto alicerce para a criação de valor.

A transformação da substância em valor intrínseco depende da validação efectuada por gerações sucessivas, que sustenta a sua continuidade pela contínua melhoria dos seus atributos e pela descoberta de novas aplicações ou mercados. Portugal disporá já de um cabaz de valores intrínsecos passíveis de serem revalidados por novas apetências ou mercados, e paralelamente torna-se urgente inventar novas valias que resistam a sucessivos ciclos económicos que se vão encurtando. A economia nesta acepção ‘valiosa’ floresce à custa da excelência que procura criar ou dar continuidade ao valor intrínseco. A replicação ou adopção de modelos de negócio ou económicos de outras paragens, serve numa visão de valor não intrínseco e negação da excepcionalidade. Se uma economia defende a ideia de valores próprios e uma identidade somos reconduzidos à ideia de valor intrínseco, consubstanciada no conceito de denominação de origem económica – valores intrínsecos com uma origem claramente identificada.

Um dos princípios básicos de geração de riqueza, e utilizando uma acepção transnacional ou global, relaciona-se com a possibilidade de deslocação dos vectores positivos ou negativos de uma economia. Um dos vectores que se pode observar será a emigração, que constitui um exemplo de como uma sociedade se movimenta em busca do epicentro do valor intrínseco, transferindo a possibilidade de geração de riqueza de uma paragem para outra ou de um país para outro. A imigração por seu turno corresponde a um fenómeno de atracção, e à percepção de que existe valor intrínseco no território de destino, e esse facto, presente no espírito humano constitui um factor produtivo positivo, pela forma como a expectativa humana pode ser convertida em capacidade produtiva.

Os atributos do valor intrínseco que procuramos identificar poderá conduzir-nos a alguns ícones do ‘espólio cultural nacional’ passíveis de conversão em produtos e marcas com relevo à dimensão global. Esta via de inversão da lógica inicial da globalização significa que cada país terá a possibilidade de reforçar a ‘fixação’ da produção autóctone, contrariando os fenómenos de deslocalização dos meios de produção.

As actividades artesanais em Portugal, entendidas enquanto valores intrínsecos que perduram no tempo, nunca mereceram a atenção económica devida. A adopção de modelos de desenvolvimento ‘modernos’ e do norte da Europa contribuiu para que as práticas tradicionais ou nativas tenham sido excluídas do grosso do projecto económico nacional. E as artes tradicionais que se extinguem representam soluções tecnológicas e inovadoras provenientes do passado, e que se poderiam projectar no futuro. Reflectir sobre a importância das actividades artesanais representa antes de mais um exercício de proximidade cultural, na medida em que as populações mantêm nestas artes uma relação emocional, cultural e de saber, o que não acontece com as novas tecnologias, que carecem de um sentido de enraizamento ou tradição.

O exercício mental que propomos consiste em repensar a base económica de um país a partir da sua matriz artesanal ou cultural. Esta abordagem representa uma tentativa de ‘reinvenção da roda’, ensaiando o reaproveitamento de elementos considerados pouco dinâmicos ou produtivos. Mais importante do que a eleição dos elementos que devem merecer esta forma de processamento, poderíamos utilizar símbolos intensamente enraizados na cultura local para tornar possível este exercício de reinvenção económica. Para a população em geral, parada no paradigma cultural local (independentemente do seu contacto com o mundo globalizado) a ligação com as práticas artesanais será mais fácil, em termos afectivos ou emocionais, do que estabelecimento da ligação com a ‘cultura neutra’ das novas tecnologias. Alguns exemplos de ‘neo-artesanato’ poderão servir para provocar brainstormings conducentes ao desenvolvimento de bens ou serviços com finalidade económica. Os computadores e a internet, no contexto da própria alteração da noção de tempo, começam a preencher muitos dos requisitos que os transformarão em objectos artesanais globais.

Um primeiro exercício simples, e que aqui se lança enquanto desafio, poderia consistir em enumerar os bens, artes ou actividades em vias de extinção e que constituem valores intrínsecos geradores de riqueza. Confirmamos a falta de imaginação dos empresários portugueses, que não integram no seu pensamento empreendedor a ideia de simplicidade económica, o que os levaria a procurar no sótão relíquias com potencial valor económico. A maioria das necessidades humanas já terá sido inventada, e a banalidade da vida oferece-nos a possibilidade de voltar a vender conceitos ou produtos básicos.

O conceito relacional entre o antigo e o moderno (enquanto metodologia para descobrir ‘novos’ bens ou serviços), poderia representar uma forma de novamente fazer render velhos ofícios ou artefactos.. Os produtos com valor intrínseco são embaixadores da economia, pela forma como condicionam a percepção que os outros têm de Portugal. Com tanta alusão à glória cultural de Portugal e ao seu passado grandioso, não assistimos ao aproveitamento de um processo contínuo de depuração económica, que se poderia traduzir no desenvolvimento de soluções para nichos de mercado. A concentração na ideia económica de ‘fora para dentro’ significa o descurar dos valores nascidos e criados localmente.

Os velhos mestres portugueses representam o último reduto para a preservação das artes tradicionais, uma vez que ‘escolas para aprendizes’ não são instituídas. A baixa pombalina desenha essa matriz económica das artes que se vão perdendo nos tempos modernos. Os correeiros que refinaram o modo de fabrico de arreios para o sector equestre, não receberam o apoio devido no sentido de fornecer os mercados internacionais. O próprio sector em Portugal, que alberga mais de trezentos e cinquenta criadores, deveria ser uma ‘indústria pesada’ a ter em conta. Se observarmos a economia alemã e o peso que a exportação de cavalos de desporto tem no seu PIB, poderemos repensar o ex-libris que representa o Puro-sangue Lusitano, já descoberto pelo mundo enquanto produto exclusivo e com vocação para a alta competição de dressage.

Mas a questão estrutural que se coloca diz respeito a um processo de auto-estima económico e cultural. As artes tradicionais encerram em si o conceito já avançado de valor intrínseco. Será que Portugal pode combater na arena económica internacional com países ou sectores económicos, em relação aos quais se observa um distanciamento tecnológico muito marcado? Será desejável embarcar num comboio que partiu há muito? Portugal poderia aproveitar a sua tendência para a ostentação para servir os mercados de produtos exclusivos, criando novas necessidades de luxo. O golfe, que tem sido promovido como o ouro negro do Algarve, não gerou um efeito de spill-over, para além da ocupação hoteleira, que significaria o desenvolvimento da indústria de acessórios com marcas fortes e produtos de qualidade. Sem pretender ser exaustivo em relação a diferentes áreas que possam merecer desenvolvimento, teremos de apontar muitos dos atributos de excelência que se manifestam em Portugal. Os portugueses reconhecidamente sabem trabalhar o ferro, a pedra, ou o vidro. Por que razão estas artes não foram convertidas em ‘universidades’ e produtos inovadores reconhecidos como marcas de excelência? Recorrentemente confirmamos o não reconhecimento das oportunidades prospectivas para estas artes fortemente enraizadas no cabaz nacional de valores culturais.

A procura de ramos, sectores ou indústrias deve começar pela identificação das artes perdidas ou em vias de extinção. A questão que se coloca equaciona-se da seguinte forma: de que modo Portugal poderá tornar-se competitivo à escala global? Que produtos ou actividades de excelência conseguirão impor-se no quadro de um mercado global cada vez mais normalizado? A resposta a esta questão relaciona-se em grande parte, não com uma ideia de produto ou actividade, mas porventura com os atributos do workforce português. Um dos atributos indiscutíveis do retrato económico nacional será sem dúvida, a grande capacidade de mobilidade dos trabalhadores portugueses.

Poderemos afirmar que os emigrantes portugueses representam o melhor ‘produto’ nacional alguma vez exportado. Os migrantes e emigrantes portugueses demonstraram grande garra no tocante à elevação do seu nível de vida. A riqueza gerada pelos portugueses no estrangeiro, acaba infelizmente por servir melhor as economias de acolhimento do que Portugal. Uma extensão do conceito de valor intrínseco diz respeito a esta dimensão humana por excelência, a capacidade que os portugueses têm para se deslocalizar. Essa experiência económica, nas suas causas e efeitos, deveria servir para a aprendizagem relacionada com a inversão do fenómeno. Ou seja, Portugal tornou-se também país de acolhimento da força de vontade humana, mas ainda não soube converter a expectativa humana, o talento e o know-how dos imigrantes em valor real para a sociedade e a economia nacionais. De um modo preliminar poderemos avançar, que o capital humano em Portugal ainda não mereceu o reconhecimento e o tratamento devidos.

Por seu turno, a chegada de sucessivas vagas de imigrantes traduz-se no contínuo refrescar da capacidade intelectual e material de uma sociedade. Não compreender essa realidade constitui um entrave ao fluxo de ideias entre os diferentes segmentos do tecido social, português ou não. Os obstáculos mentais e culturais à chegada de elementos que questionam os paradigmas dominantes, devem ser substituídos por espaços abertos de recepção e aproveitamento de talento e atributos intelectuais. A redefinição do conceito de zonas económicas especiais poderia significar um fenómeno de atracção e fixação de elementos potencialmente geradores de riqueza.

Vamos supor que certas regiões do território nacional sujeitas ao fenómeno de desertificação ou desemprego possam criar condições para relançar o seu desenvolvimento. Para além da criação de zonas de compensação fiscal e da reduzida taxação de empresas, um certo ambiente intelectual poderia servir para alicerçar investidores e fixar membros da ‘comunidade cerebral’ que partem à procura de novas paragens mais vantajosas em termos económicos, académicos ou sociais. A deslocalização das grandes multinacionais para países do leste europeu ou para o sudeste asiático, deixando Portugal de mãos a abanar, poderia servir para repensar as formas de atracção de vectores produtivos. Se a redução das cargas fiscais para as empresas que pretendam fixar residência em Portugal, representar o modo de eliminar o desemprego em determinadas regiões, então será sempre uma opção viável, uma vez que serão os trabalhadores a beneficiar com salários dignos, e esses rendimentos, estimulando o consumo privado e directo, significa a permanência no território de valores financeiros importantes.

Poder-se-ia desenvolver um conceito de on-shore através do qual se implementam processos de reequilíbrio estrutural, condição necessária ao crescimento sustentado. O Estado, enquanto beneficiário dos impostos e taxas das grandes multinacionais acaba por não devolver os meios financeiros aos trabalhadores que são duplamente contribuintes (pela oferta de mão-de-obra e pelo pagamento de impostos), negando deste modo a possibilidade aos trabalhadores de eventualmente se lançarem no domínio da livre iniciativa empresarial.

As empresas mais sólidas a nível mundial tiveram quase sempre uma origem modesta, familiar ou mesmo individual. A economia não representará uma entidade abstracta. Cabe a cada indivíduo reinterpretar o mundo que o rodeia e repensar o que significa a criação de valor. E a riqueza que se gera terá apenas um destino. A sua devolução à sociedade. Cada indivíduo, independentemente da sua função económica, do seu know-how ou grau de instrução, tem um papel importante a desenvolver na geração de riqueza. O denominador comum de qualquer processo da economia será sempre a procura de excelência. Faça a sua escolha. Produza excelência.

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publicado às 11:36

raetsaH da Bandeira.

por John Wolf, em 08.10.12

 

Nada nos deve surpreender a partir de agora. Entramos no domínio da ficção, digna de telenovela. Encontramo-nos na taberna com gerência assegurada pelo próprio. Já levamos com um cartão. Um vermelho directo. O Presidente da República, ao raetsah a bandeira assinalou um fora de jogo ao país inteiro, e de seguida escapuliu pela porta dos artistas. Pergunto: o que se segue? O que preparou para nos entreter, para nos distrair dos problemas do país? Será que o homem vai entrar na auto-estrada em sentido contrário? Será que vai enfiar a cabeça numa meia julgando tratar-se de uma carapuça? Ou será que vai à mercearia comprar bolachas Maria para a Maria e esquece-se do porta-moedas? Pois. São questões e perguntas que nos atordoam o juízo, que não nos deixam dormir descansados. O mago anda aí para nos pregar mais partidas...

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publicado às 14:33

A austeridade compensa?

por Faust Von Goethe, em 06.10.12

 À semelhança da Grécia, Portugal claudicou após a 5ª avaliação da troika. E os últimos sinais, após as recorrentes manifestações que se vêm a realizar desde 15 de Setembro, apontam para o início de convulsões sociais. Os protestos começam a ser [quase] semanais, assim como os confrontos entre manifestantes e as forças de segurança nas imediações da Assembleia da República.

A luta de classes, que muitos pensavam ter acabado, pode vir a reacender-se com a suposta falta de equidade das medidas de austeridade anunciadas na última quarta-feira pelo ministro das finanças e de estado, Vítor Gaspar.

Já nem Vítor Gaspar, o professor aprumado de economia e entendido finanças [públicas], consegue projectar qual será o futuro de Portugal, uma das cigarras do sul da Europa, ao par da Grécia, Espanha e Itália. E diante o dilema de Portugal se vir a tornar numa nova Grécia, o governo, mesmo vaiado e contestado em praça pública, não vacila e continua a apresentar medidas cada vez mais duras para os trabalhadores e famílias. 

Ainda hoje o Correio da Manhã, um dos jornais nacionais de maior tiragem, avança com a manchete "SALÁRIO DE 2 MIL EUROS PAGA TAXA MILIONÁRIA".

 

No artigo "Salário de 2000 € deixa 2/3 no Fisco" pode ler-se o seguinte:

Se a nova taxa máxima de IRS for aplicada a rendimentos brutos acima dos 80 mil euros como quer Vítor Gaspar, as famílias que ganhem 2000 euros líquidos por mês já terão deixado dois terços do seu rendimento nos cofres do Estado. Esta medida do ministro das Finanças chocou vários ministros e deputados dos partidos da coligação, que a consideram "impossível de aplicar dentro de um Governo que foi eleito para aliviar a carga fiscal das empresas e das famílias". O ministro das Finanças anunciou na quarta-feira que os actuais oito escalões de imposto passam para cinco, que haverá uma sobretaxa de quatro por cento no IRS e uma actualização dos escalões em dois por cento. Para os rendimentos mais altos, que actualmente se situam acima dos 153 300 euros brutos por mês, será ainda aplicada uma taxa de solidariedade de 2,5%.

As medidas apresentadas por Vítor Gaspar deverão ser discutidas no Conselho de Ministros extraordinário marcado para amanhã, mas muitas fontes próximas do Governo dão como certos vários recuos por parte do ministro das Finanças em relação às medidas já anunciadas para 2013. "Estão dezenas de cenários em cima da mesa", disse um responsável governamental sobre a redefinição dos escalões de IRS.

Uma coisa é certa, tal como já disse publicamente, Paulo Portas vai fazer "finca-pé" nos cortes do lado da despesa. E, neste universo, as Parcerias Público--Privadas (PPP) são o principal objectivo do ministro dos Negócios Estrangeiros. A ideia é arranjar uma fórmula que permita ao Estado poupar nas PPP e aliviar a carga fiscal sobre as famílias e as empresas.

Como mostrou Vítor Gaspar na conferência de imprensa da passada quarta-feira, a proposta para o aumento da progressividade do IRS baseada na curva de Lorenz e no índice de Gini, distribui [teoricamente] de forma mais justa os sacrifícios entre os mais pobres e os mais ricos, ao contrário das mexidas na TSU que incidia de forma equitativa sobre os mais pobres e os mais ricos.

No entanto, o modelo de ciência económica proposto por Gaspar esbarra em duas realidades [sociais] incortonáveis de Portugal:

  • Portugal é um dos país da OCDE com os índices mais elevados de pobreza. Só se consegue poupar esta classe se forem impostos [mais] sacrifícios à classe média. 
  • Um rendimento mensal familiar de 2000 euros não é considerado um salário médio, mas um rendimento de topo [em Portugal], uma vez que somos dos países de UE que tem uma massa salarial mais baixa.   

Sendo que os sacrifícios causados pelos cortes draconianos no rendimento das famílias é um efeito da austeridade fiscal na economia, quais poderão ser as consequências políticas da austeridade? Mais protestos? Mais remodelações governamentais? Ou o início de um golpe de estado?

De acordo com um estudo recente de Ponticelli e Voth, com base na recolha notícias na imprensa entre 1919 e 2008, foi mostrado que os aumentos da insatisfação social eram precedidos, em geral, por cortes na despesa pública (i.e. em saúde, educação,...). Corroborou-se no mesmo artigo que a insatisfação explode quando os cortes são muito elevados ao par que os efeitos dos aumentos na receita pública têm efeitos mínimos na revolta social.

Um outro estudo na mesma linha, realizado por Alesina, Carloni e Lecce, debruçou-se sobre os efeitos da austeridade fiscal na probabilidade dos governos que a implementaram serem reeleitos, com base em dados de 19 países da OCDE, entre 1975 e 2008.

Pode-se concluir com base neste estudo que, mesmo que austeridade fiscal leve ao aumentos de protestos, o povo não costuma castigar quem a implementa se e apenas se a estabilização das finanças públicas for bem sucedida.

Destes dois estudos, podem-se ainda retirar as seguintes conclusões:

  • As pessoas sofrem com as reformas desde que percebem que estas são necessárias. 
  • Enquanto os aumentos nos impostos e na receita pública têm um efeito disperso por toda a população, os cortes grandes levam a que a perda de regalias se reflicta sobretudo na classe média. 
  • O poder político de um grupo alargado de pessoas que têm influência e capacidade de extrair benesses do Estado- como é o caso dos sindicatos-reflecte-se na sua capacidade de organizar manifestações e greves, assim como motins, assassínios, ou tentativas de derrubar o regime à força. Mas não reflecte a vontade do povo.

Como temos vindo a assistir, em [quase] todos os países europeus que tiveram eleições nos últimos tempos, houve mudanças de governo.

O povo castigou nas urnas os que não evitaram a crise, colocando no poder políticas de austeridade duras e cruas. Foi assim em Portugal, assim como em Espanha e Grécia.
No entanto, para recolher os frutos eleitorais das reformas anunciadas, o governo terá de sanear as contas do estado assim como baixar consideravelmente a dívida pública, metas que ainda não foram alcançadas. Nem se vislumbra quando o serão...

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publicado às 18:03

Austeridade, vai-te lixar!

por John Wolf, em 06.10.12

 

Para além de gritar desalmadamente, bater na mesma tecla de protesto, cabe à sociedade cívil pôr em prática alguns antídotos para a austeridade. A subida de impostos está efectivamente a retirar poder de compra aos consumidores. Embora a designação não seja a utilizada, assistimos a inflação. Inflação de preços por um lado, e numa escala Europeia, a inflação na sua acepção mais pura. Ou seja, o aumento da base monetária por via directa ou indirecta de impressão de divisas, ou compra pelo BCE de títulos de tesouro de países em apuros. De qualquer modo o resultado das acções (des)concertadas é idêntico; o rendimento disponível dos cidadãos está a minguar. O preço de um litro de leite ou de um par de sapatos já aumentou sem que alguém tenha acrescentado zeros à etiqueta. Como a reposição da riqueza não cabe ao Estado, uma vez que o seu papel fundamental consubstancia-se na transferência de rendimentos, dando expressão a uma boa parte do contrato "colectivo" ou "electivo", ou seja,  justiça económica e social, cabe  à sociedade civil tomar a iniciativa. Os intervenientes que vivem e operam no mercado, estão obrigados a encontrar soluções que promovam o crescimento e emprego. Nessa medida, os agentes económicos que competem pela mesma quota de mercado, devem proceder a reduções drásticas dos preços dos bens e serviços que oferecem. Numa primeira fase, observaremos assimetrias no comportamento económico, que alguns chamarão de concorrência desleal. Mas a vantagem competitiva faz parte da natureza humana, está entranhada no DNA e vem à tona em momentos de desespero, de crise. Deste modo, e a título de exemplo, o café da esquina deve baixar o preço da bica aos 30 cêntimos, provocando desse modo uma procura acrescida, e, embora a sua margem seja menor, tal facto será atenuado pela procura - uma casa apinhada de clientes ávidos por realizar uma poupança, aumentando deste modo o seu rendimento disponível. A cultura económica europeia fortemente dependente de soluções vindas de cima, e sempre queixosa dos constrangimento da lei, tem de alterar rapidamente o seu quadro mental, a sua forma de interpretar as regras do jogo. Se ficar à espera da bonança, mais vale ficar sentado no banco do jardim à espera de melhores dias que não virão. Neste momento, distintas dimensões que serviram para medir os tempos económicos estão em rota de colisão. O desemprego que se assume como conjuntural, está em mutação para se tornar um residente com um visto de permanência mais próximo dos 10%. E este facto vai provocar rombos no conceito de segurança económica e social. Jamais regressaremos ao passado de relativo conforto de uma percentagem "aceitável". Nessa medida, o Estado deve rever a sua matriz filosófica, o seu modo existencial, e instigar a ideia de transferência voluntária. E é aqui que reside o problema. Como se pode dar o que se não tem.

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publicado às 13:33




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